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A vida sob medida

O filme Ela, de Spike Jonze, mostrou as delicias de se apaixonar por um sistema operacional que não nos contradiz,
não nos desagrada e tem a forma, a voz e interage conosco a hora que quisermos. Este mundo já está entre nós


   Um dos filmes recentes que me parece mais próximo de
    delinear um futuro não romantizado entre o homem e a
    tecnologia
é Ela (2014), de Spike Jonze. No filme, o
   personagem principal (Joaquin Phoenix) se apaixona por
   um sistema operacional
num futuro onde as pessoas
   andam pelas ruas com as cabeças mergulhadas para
   dentro, falando com o sistema que adotaram. O sistema
   operacional do personagem não é aqueles robozinhos
   de filmes retro futuristas
. É melhor. Não tem corpo, ou
   tem o corpo que ele quiser
. Tem a voz que ele quiser.
   Fala, concorda e ri daquilo que ele quiser, por conhecê-lo
   a fundo, por meio de análise de dados. O sistema
   operacional é, portanto, a amante perfeita.


   Para quem acha que isso está num futuro muito distante,
   que tal olharmos para os elementos tecnológicos que
   existem hoje,
e estão muito próximo do que Jonze
   desenhou no filme. Antes de mais nada, não se trata de um daqueles textos nostálgicos de babões que acham que tudo era lindo na época em que as pessoas sentavam na praça para conversar à noite. Eu adoro tecnologia, mas nem por isso ignoro o preço que todos pagamos ao nos tornar cada vez mais Theodore, o personagem do filme.

Curtir – Quando gostávamos de algo, no passado, costumávamos visitar, frequentar, consumir e falar sobre isso. Hoje, o Curtir – e seus derivativos mais sofisticados, Amei, Uau, Triste, Raiva e Haha – substituíram todas estas necessidades. Como diz o escritor Johathan Franzen, curtir deixou de ser um estado de espírito e passou a ser algo desempenhado com um clique. Como Theodore, em vez de ir para o parque, curtimos a foto que o amigo postou do parque. Em vez de visitarmos o sobrinho em outra cidade, curtimos a foto recente que ele postou, atualizando suficientemente nossa relação com ele. Curtir, amar, rir e enfurecer-se se tornaram reações programadas e controladas por nós. Mas e quando algo foge do controle?

Deixar de seguir – Assim como o sistema operacional de Ela, o Facebook também foi habilidoso em nos permitir ter o
controle absoluto da reação alheia
. Quando alguém nunca nos curte ou exibe um modo de vida que lhe incomoda as vísceras, basta deixar de segui-lo. Pronto, este universo não existe mais. E se alguém comentar algo que você não queria, calma, será a última vez, pois a amizade está desfeita. Assim como no filme, ferramentas tecnológicas como essa nos permite viver num mundo absolutamente controlável, sem que precisemos conviver com a dor, com a adversidade ou com a opinião alheia. E falando nisso...

Twitter – Quando lemos um jornal ou uma revista, nos deparamos invariavelmente com notícias que nos incomodam ou vão contra aquilo que pensamos. Uma pesquisa que aponta que comer ovos faz mal. Ou que casados são mais preguiçosos. Com o Twitter, conseguimos seguir pessoas, sites e notícias que refletem perfeitamente aquilo que queremos. A notícia taylor made, sob medida. A partir de agora, não seremos mais incomodados em ler aquilo que vai contra nossas crenças. É óbvio que o efeito colateral disso é nos tornarmos absolutos de nossa própria convicção, jovens dogmáticos quando o dogmatismo era apenas um efeito natural da velhice.

   Google – Assim como o sistema operacional do filme vai
   atrás de milhões de dados para oferecer a Theodore o
   conforto, a informação e o prazer que ele precisa naquele
   momento, o Google também é capaz de nos dar a razão
   suficiente para não votar naquele candidato
, de
   acreditar que bacon faz bem e que, por sugestão de
   pesquisa do mecanismo de busca, é importante saber
   quem é a esposa de Daniela Mercury, antes mesmo de
   saber quem é Daniela Mercury.
Se não tiver preguiça de
   pesquisar, o Google será capaz de nos fornecer, talvez
   mais afinado que o Twitter, as verdades e convicções
   que nos satisfazem em qualquer âmbito da vida, de
   ecologia a bebidas.

   Youtube – Foi-se o tempo em que tínhamos que assistir
   a uma novela chatíssima e, de tão distrativa, acabávamos
por conversar com os pais na sala e interagir com a família
. O entretenimento audiovisual hoje não é feito para nos entediar. Assim como o sistema operacional de Ela, que pode ser a garota perfeita que Theodore quiser, hoje podemos ver e rever a mulher dos sonhos e nos fantasiar num mundo ainda mais prazeroso que os clipes da MTV dos anos 1990. Pois aqui, no Youtube, podemos ver Taylor Swift mil vezes e nos saciar dela a ponto de dispensar qualquer contato físico. Que por falar nisso...

Xvideos – o portal mais famoso de pornografia online é também o substituto perfeito daquela coisa retrógrada chamada sexo real. Nele, delineamos o corpo, a quantidade de pessoas, as posições, o horário e local que quisermos para satisfazermos nossos prazeres mais primitivos. Não é à toa que tantos estudos estão saindo pelo mundo afirmando que pornografia virtual vicia e está destruindo as relações sexuais entre duas ou mais pessoas.

Smartphone – No alvorecer o século 21, ele foi
considerado a maior invenção da humanidade, simplesmente porque reúne, dentro de uma caixinha,
várias outras grandes invenções – fotografia, cinema, luz, telefone, computador etc. Os smartphones estão ficando tão autossuficientes que podemos fazer quase tudo que acima foi citado sem tirar os dedos e olhos deles. A cena mais forte de Ela, quando Theodore passeia pelo mundo futurista e todos, absolutamente todos, estão falando sozinhos com o sistema operacional no ouvido, já está acontecendo. Mas
em vez de falar sozinhos, todos estão olhando para a
telinha do celular.


Como disse, sou fã de tecnologia. Mas tenho um profundo medo de um tempo em que nossos filhos não mais vão querer passear na praça com o cachorro, ou ir ao cinema, porque é melhor ficar no Netflix. Ou quando nossos netos forem a uma clínica para engravidar porque a relação virtual é mais cômoda que a real. Ou quando nossos bisnetos não saberem mais qual é o cheiro de quem não tem acesso à água potável porque não mais andam pelas ruas para ver a pobreza com os próprios olhos. Ou quando nossos tataranetos não mais se importarem para os problemas do mundo porque estes estão muito longe dos sofisticados filtros e bloqueios do Google.



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