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O escândalo como mercadoria audiovisual

Quanto mais chocante, mais audiência, ainda que o preço seja a censura. Para atrair a atenção, vale forma sem conteúdo. Mas como diferenciar intenções caça-níqueis ao estilo Miley Cyrus de artistas geniais como Pasolini e Lars Von Trier?

   Não faz muitas décadas que um beijo um pouco mais
   longo, uma mão mais ao sul da barriga ou um simples
   olhar causava uma grande repercussão negativa nos
   cinemas e na televisão
. A autocensura era constante,
   tanto dos espectadores quanto dos próprios produtores
   audiovisuais, que tomavam todo cuidado do mundo
   para não desagradar o público e perder dinheiro. Mas
   isso mudou, ou melhor, reverteu-se radicalmente. Após
   Maio de 1968, ainda que o ocidente tenha tido momentos
   conservadores e até de tentativas de regredir a liberdade
   de expressão, nunca mais se deu um passo atrás
   definitivo com relação a este tipo de exposição de imagem.

   Ao contrário, a ordem agora é chocar. Com a pulverização
   de emissores de informação e imagem, os produtores
   audiovisuais disputam acirradamente a atenção e a

audiência do público. O escândalo e o choque viraram uma necessidade do mercado cultural. Quanto mais forte a imagem, mais curiosidade ela vai atrair, mais boca-a-boca, mais dinheiro. Em casos extremos, o produtor pode até sofrer reveses, como sofrer censura. Mas até lá, terá tido todo espaço de mídia que precisa para futuros empreendimentos “artísticos”. Como é o caso do diretor Srdjan Spasojevic, que em 2010 lançou Um Filme Sérvio, causando escândalo no mundo inteiro por exibir cenas de estupro envolvendo crianças e até recém-nascidos. Ainda que censurado, seu nome rodou o boca-a-boca no planeta, ele ganhou um festival pelo filme, foi nomeado em outro e foi contratado depois para produzir outro filme também com cenas bastante fortes, O ABC da Morte, de 2012.

A predileção de alguns artistas pelo escândalo e o choque não vem de hoje. Mas é fundamental saber distinguir entre
o produto que usa o escândalo sem uma mensagem
por trás, para mero fins de sensacionalismo e publicidade, e a obra de arte que utiliza de imagens fortes para fazer o público repensar certas verdades pré-estabelecidas.
Miley Cyrus esfregando o bumbum num rapper na
premiação da MTV é caça-níquel puro. Charlotte
Gainsbourg apanhando toda amarrada numa mesa é arte.

Em Medéia, Eurípedes coloca uma personagem que
mata os próprios filhos
por conta de um ciúme
incontrolável. Quebra o perfil da mulher conformada e
coloca uma personagem que se rebela contra a ordem vigente e se vinga do ex-marido da forma mais trágica. Artistas barrocos, como Michelangelo Caravaggio, e o mito espanhol Picasso, pintaram temas de formas que assombraram sua época, mexendo em feridas sociais que muitos queriam ignorar. Até em países muito conservadores do oriente, como o Japão, o choque e o escândalo na arte foram a serviço de trabalhar uma ideia de forma absolutamente original, ainda que o preço seja a censura. Em 1976, Nagisa Oshima lançou O Império dos Sentidos, que teve que ser finalizado na França pois nenhuma empresa japonesa aceitou o pedido. Mas o filme é uma das obras fundamentais do cinema mundial, ao discutir qual é o limite do prazer e sua ligação com o universo da dor e da morte.

   No mesmíssimo ano, Pier Paolo Pasolini lançava Saló ou
   120 dias de Sodoma
,
uma obra perturbadora inspirada na
   obra homônima de Marques de Sade, na qual um grupo
   de jovens são escolhidos por líderes fascistas – que
   representam os poderes econômico, religioso, judicial
   e a nobreza
– para promoverem uma série de torturas e
   experimentos sádicos. Imagens chocantes discutiam,
   como poucos, nossa sede pela dor alheia e o poder
   como instrumento de humilhação e tortura
, entre vários
   outros aspectos.

   No outro extremo estão tolices audiovisuais como Rambo.
   Em seu último filme, na qual Sylvester Stallone é um nobre
   herói que vai salvar os birmaneses dos sanguinários
   ditadores, em uma das últimas cenas do filme, Rambo
   pega uma “bazuca” e lança sobre um dos militares
. Em close, vemos a bala entrar no corpo do “inimigo” e cortá-lo ao meio. O espectador entra em êxtase, afinal, Rambo é o mocinho e tem todo direito de estilhaçar um ser humano dessa maneira. Entretenimento. Lucro. No quesito arte e conteúdo questionador e original, não há nada.

A televisão também apela para imagens cada vez mais fortes, às vezes em horários vespertinos e na televisão aberta etc. O mundo cão é freguês antigo da telinha, mostrando as bizarrices humanas na tarde do Faustão, peladas se esfregando com um artista na banheira da tarde de domingo do Gugu e crimes horrendos e com imagens em close nas noites terríveis ao lado do Datena.

São poucos, hoje, os artistas vivos que salvam a lavoura, mostrando que o sexo e a violência não são mercadoria, não devem remeter ao lucro ou ao entretenimento vazio. Meus dois diretores favoritos vivos são mestres neste
campo: Lars Von Trier e Michael Haneke. Lars discutiu em vários filmes o sadismo humano pelo sexo e a violência, como bom herdeiro de Pasolini que ele é. Tomemos seu último filme, Ninfomaníaca, na qual ele mostra uma personagem atormentada por não conseguir mais sentir prazer, buscando todas as formas para retomar seu vício. A cena em que ela apanha do sádico contratado discute o prazer pela dor, existente, verossímil. Não o clichê ridículo de 50 Tons de Cinza, na qual o sádico pergunta “então, doeu?”. Em outra cena do filme do Lars, o personagem reflete sobre a tragédia de ser pedófilo e sua fonte de prazer não aceita por nenhuma sociedade. O trancafiamento dos sentimentos, que gera uma terrível catarse final, tão comum no dia a dia de homens bomba
que detonam boates e festas em prol de uma religião que,
na verdade, mascara sua repressão sexual.

Michael Haneke discute de forma tão real a violência que nem mesmo conseguimos assisti-la. É o gênio que coloca a violência em sua dose mais real e mordaz, tão forte que nem ele é capaz de mostrar, jogando as cenas para fora do campo. Em Violência Gratuita, ele discute o voyeurismo sádico de nós espectadores de querermos ver a tortura
de uma família até sua morte
. E nós vemos, aterrorizados. Em Amor, ele discute a fina linha que divide o amor mais puro da inevitável dor da idade. Em Cachê, ele discute a violência por trás da era da imagem que vivemos. Gênio.

Para quem já sofreu qualquer violência sexual, psicológica ou física, é clara a ideia de que nem toda nudez é libertação, nem todo sexo é belo, nem toda dor e exibível. Imagine você ser o pai ou a mãe de uma das várias crianças que morreram soterradas na creche que havia no World Trade Center no 11 de setembro. A torrente de replays nos programas jornalísticos dos aviões caindo, os filmes-espetáculo e todo o sensacionalismo diante daquelas imagens lhe soariam uma homenagem a sua dor ou um desrespeito em forma de mercadoria?



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