O lado bom e desafiador da pirataria: copie e cole estas ideias
Paulo Coelho bradou em seu site que pirateiem seus livros. Apesar de algumas bobagens ditas pelo alquimista, ele levanta pontos interessantes que vão de encontro ao discurso enfadonho e repetitivo da mídia e da indústria cultural
Como diz aquele velho ditado: “tudo tem um lado bom na vida”. No caso da pirataria, há vários lados positivos que precisam ser confrontados com o discurso midiático, que de tão enfadonho e repetitivo já não atrai a atenção nem mesmo daqueles que deveriam zelar por seus produtos. Se em vez de lutar contra, os produtores de bens culturais soubessem aproveitar os pontos fortes e fracos da pirataria, talvez ela até perderia este nome, digamos, tão século 16.
Em janeiro deste ano, Paulo Coelho – o escritor-mago que já vendeu 150 milhões de livros no mundo inteiro – causou polêmica ao defender a pirataria em seu site, aproveitando para criticar projetos de lei dos EUA que miram enfraquecê-la. Embora seja bem fácil apontar tais argumentos do alto de seu milionário pedestal, Paulo Coelho não deixa de ter razão em alguns pontos, mas perde em outros. “Piratas do mundo, uni-vos e pirateai tudo que já escrevi”, disse ele.
O alquimista perde a razão – para falar o mínimo – ao argumentar que tudo que se faz hoje no mundo “é nada mais que reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor entre duas pessoas, um triângulo amoroso, a luta pelo poder e a história de uma jornada”. Oras, se tudo é reciclagem, então que ele passe toda sua fortuna – e a devida autoralidade de suas obras – às fontes primárias de seus livros, pois quem recicla um produto cultural, misturando ideias, sabe certamente quais foram os ingredientes originais da receita.
“Quanto mais ouvimos uma música na rádio, mais queremos comprar o CD. É a mesma coisa com a literatura.” Bobagem! E quanta ingenuidade. Mas não seria diferente de alguém que provavelmente não mais convive com jovens de 10 a 20 anos, que ouvem uma música e antes mesmo de terem o discernimento para saber se gostaram ou não, já clicaram em sites piratas e baixaram a mesma em seu computador com gigas e gigas de memória unicamente para este fim. Conheço uma legião de jovens que nunca compraram um CD – mas frequentam as lojas para saber o que tem de novo para baixar na internet.
Em seguida, Paulo Coelho afirma que o primeiro contato pirata com uma obra pode estimular o consumidor a adquirir os originais posteriormente. Foi assim que ele saiu da condição de ‘edição pirata’ na Rússia, para vendedor de mais de 12 milhões de livros em 2002 na terra de Dostoievski. “Piratear pode servir como introdução ao trabalho de um artista. Se você gosta da sua ideia, então você vai querer tê-lo em casa; uma boa ideia não precisa de proteção. O resto é ganância ou ignorância”, resume o escritor.
Neste ponto, Paulo Coelho tem razão. Os mesmos rapazes classe-média de 15 anos que baixaram o novo disco da Madonna vão pagar uma fortuna para vê-la cantar no Morumbi, meses ou anos depois, ainda que não consigam ver um fio de cabelo loiro dela a não ser pelo telão ao lado do palco. Ou seja, bons artistas, escritores e produtores culturais sempre serão remunerados, basta encontrar as novas formas de remuneração dentro deste novo cenário em que tudo pode ser baixado em um clique.
O artista musical ganhará dinheiro com shows ao redor do mundo (prepare as malas, agora as viagens são obrigatórias). O diretor cinematográfico ganha prestígio para captar recursos para novos editais. O escritor ganha prestígio, abre portas, ministra palestras (pagas) e cursos em vários locais do mundo, se torna um especialista na área, garante futuros contratos editoriais, tudo isso apesar de ter seus livros ‘xerocados’ diariamente.
Isso significa que nada devemos fazer para combater a pirataria de produtos culturais e intelectuais? Muito pelo contrário, mas prender o dono de um site como o Megaupload e tirá-lo do ar é transformar o pirata em mártir e espalhar a erva daninha, em vez de podá-la – como assassinar publicamente um terrorista. Se as maiores interessadas em combater a pirataria são as produtoras culturais – de editoras a estúdios de Hollywood – é no mínimo ridículo exigir do poder público a responsabilidade de fiscalizar todas as ruas do mundo e apreender o comércio ilegal de produtos piratas.
Cabe aos próprios produtores culturais achar soluções para sufocar a pirataria, a começar, por exemplo, por diminuir drasticamente o custo insano de livros, CDs, DVDs e ingressos de filmes. Com a justificativa de querer compensar os gastos com impostos e também pirataria, a indústria cultural está dando um tiro no pé, incentivando a própria pirataria. Cobrar R$ 70 por um CD ou um livro num país onde este valor representa mais de 10% do salário-mínimo é no mínimo um convite à pirataria. Outras soluções vão da fragmentação de conteúdoà venda até pesquisa de novas formas de ganhos publicitários com a apresentação de conteúdo gratuito online, o que já está acontecendo em países como os Estados Unidos. Em resumo, não se deve temer o advento de tecnologias digitais só porque elas estimulam o consumo gratuito e venda ilegal de produtos culturais.
É sempre bom lembrar que os estúdios de Hollywood tremeram nas bases quando a TV (entretenimento ‘gratuito’) surgiu, nos anos 1940. Eles, então, criaram muralhas para “proteger” seus conteúdos e estrelas. A Corte Suprema Americana derrubou tais muralhas e deu ganho de causa à televisão. E a nova tecnologia elevou às alturas o faturamento das mesmas indústrias culturais. É claro que não se está comparando TV com pirataria, mas a televisão fomentou o surgimento do VHS e, com ele, da própria pirataria, sem que isso tenha derrubado nem o cinema nem a indústria televisiva.
Como escritor, prefiro acreditar que quem passa os dias pirateando um dia ganhará bom gosto cultural a ponto de querer consumir produtos tecnicamente de maior qualidade. E nisso os originais são imbatíveis. Ou você já viu uma cópia pirata de Avatar com a mesma qualidade de exibição que a sessão em uma boa sala de cinema? Se sim, ou o Avatar está muito caro para valer comprar um pirata de tão boa qualidade, ou o cinema perdeu qualidade técnica. Não é o caso.
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